Experiência apresentada na African Fencing Conference levanta discussão sobre o uso de cercas de exclusão para reduzir danos causados por javalis e conflitos entre onças e rebanhos no Brasil
Se sistemas de cercamento são utilizados internacionalmente para manejar a convivência com elefantes, grandes predadores, ursos, macacos e outros animais selvagens, por que o Brasil ainda explora tão pouco essa tecnologia diante dos conflitos entre produção agropecuária e fauna?
A pergunta ganhou força para o médico-veterinário André Mussio, gerente nacional da Gallagher Brasil, após sua participação, em setembro, na African Fencing Conference, realizada na África do Sul.
O encontro reuniu especialistas e profissionais do setor de cercamento para discutir técnicas, tecnologias e aplicações utilizadas no continente africano, onde propriedades rurais, comunidades, áreas de conservação e grandes animais frequentemente dividem o mesmo território.
Segundo Mussio, uma das principais diferenças observadas está na maneira como a cerca é encarada. “Quando falamos em cerca no Brasil, normalmente pensamos primeiro em manter o gado dentro de determinada área. Na África, existe uma visão muito forte do outro lado dessa equação: utilizar sistemas de cercamento para evitar que determinados animais entrem em áreas onde podem gerar conflitos.”
Potencial de aplicação para conter o avanço do Javali
Diferentemente de uma simples barreira física, esses sistemas consideram o comportamento da espécie que se pretende manejar, além de fatores como altura, espaçamento dos fios, eletrificação, aterramento, vegetação, topografia, manutenção e pressão exercida pelos animais.
No Brasil, uma das aplicações potenciais está relacionada ao avanço do javali. Classificado oficialmente como espécie exótica invasora, o animal já possui registros em pelo menos 15 unidades da Federação e provoca impactos ambientais e socioeconômicos.
Além das políticas de controle populacional existentes, a cerca elétrica representa uma ferramenta adicional para proteger áreas produtivas consideradas estratégicas ou vulneráveis.
“Não existe uma solução isolada para o problema do javali. O que podemos discutir é como prevenção, monitoramento e controle podem trabalhar juntos. Se conseguirmos impedir que o animal entre em determinadas áreas, podemos evitar parte do prejuízo antes que ele aconteça”, explica Mussio.
Para as onças, a cerca elétrica potencializa sua conservação como também proteção aos bezerros. Em determinadas regiões pecuárias, a proximidade entre predadores e animais domésticos pode gerar perdas para produtores. A cerca de exclusão de animais silvestres, nesse caso, pode ser usada em áreas de maternidade, piquetes de animais jovens e outros pontos de maior vulnerabilidade.
“O objetivo não é combater a onça, mas buscar maneiras de reduzir o encontro entre o predador e o rebanho”, afirma Mussio sobre a proteção de patrimônio e conservação do animal silvestre.
Tecnologia desenvolvida a partir do comportamento animal
A Gallagher é uma empresa neozelandesa que trabalha com sistemas de cercas elétricas desde 1938 e atualmente possui atuação em mais de 100 países. Em cercas de exclusão para animais silvestres, a empresa acumula experiências internacionais que vão da proteção contra porcos e cervos selvagens a corredores para elefantes e sistemas de separação de animais em áreas de safári.
Segundo Mussio, entretanto, o objetivo não é simplesmente importar uma configuração utilizada no exterior. “Não podemos pegar uma cerca africana e acreditar que basta instalá-la no Brasil”, afirma, lembrando que há particularidades de clima, vegetação, espécies e propriedades completamente diferentes. “O conhecimento internacional serve como ponto de partida. Agora estamos tropicalizando esses conceitos.”
Ele acredita que o crescimento dos conflitos entre produção, expansão das populações de espécies invasoras e conservação da fauna deverá tornar as tecnologias de exclusão cada vez mais relevantes. “A experiência africana mostra que cercamento e conservação não precisam necessariamente ocupar lados opostos”, afirma sobre o que viu na África do Sul.
Quando corretamente projetadas, estruturas de exclusão podem fazer parte de estratégias destinadas a proteger áreas produtivas, reduzir encontros entre seres humanos e fauna e administrar melhor territórios onde produção e biodiversidade precisam coexistir.
Sobre a Gallagher
A Gallagher é uma multinacional com sede e unidade de produção na Nova Zelândia, presente em 160 países, incluindo o Brasil. Inventora da cerca elétrica em 1930, segmento em que é líder global, também investe fortemente em tecnologia para manejo animal, como sistemas de pesagem, rastreamento e monitoramento. Globalmente, dedica 15% do seu faturamento à pesquisa e desenvolvimento para inovação contínua no campo.

Flag Comunicação
Fernanda Barros – fernanda@flagcomunica.com.br
Flavia Tonin – flavia@flagcomunica.com.br