Pecuária tropical: rusticidade é exigência e amplia espaço para o Simbrasil no cruzamento industrial

Mudanças climáticas, maior irregularidade das chuvas e pressão por eficiência tornam a adaptação uma característica estratégica dos rebanhos; experiência da SAEXI mostra como a heterose pode ser incorporada sem aumentar a complexidade da fazenda

Produzir mais carne sem aumentar a complexidade do sistema tornou-se um dos principais desafios da pecuária brasileira. Em regiões como o Norte de Minas Gerais, onde a produção convive com altas temperaturas, longos períodos de estiagem e distribuição irregular das chuvas, a escolha assertiva da genética bovina passou a representar ganho de produtividade baseado na estratégia de adaptação. 

O tema ganha relevância à medida que a pecuária tropical encontra opções mais resilientes às mudanças climáticas. Em recente posicionamento sobre o papel da pecuária brasileira como parte das soluções climáticas, a Embrapa destaca que o uso de raças adaptadas às condições tropicais, aliado ao melhoramento genético e às boas práticas de manejo, está entre as estratégias para ampliar a eficiência dos sistemas produtivos e fortalecer sua resiliência diante dos desafios climáticos.

É nesse contexto que o Simbrasil vem ampliando espaço nos programas de cruzamento industrial. A raça combina a heterose característica dos taurinos com a rusticidade necessária aos sistemas tropicais, permitindo produzir bezerros mais pesados sem exigir mudanças significativas no manejo já adotado nas fazendas.

Mais produtividade sem mudar o sistema

Um dos exemplos é a SAEXI Agropecuária que iniciou a seleção da raça em 1998 e desde então amplia seu programa como Simbrasil, pela resposta da raça aos desafios da região árida. Com sede em Itabira (MG) e operações nas cidades mineiras de Bom Jesus de Amparo, Nova União e no norte de Minas Gerais, conhece como produzir em uma região com condições desafiadoras. Dados gerais da região indicam um regime de chuvas abaixo de 800 mm em diversas localidades e uma estação seca que se estende por cinco meses (maio a setembro).

Nesse ambiente, adaptação, fertilidade e eficiência produtiva deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos para a sustentabilidade dos sistemas de produção. A empresa utiliza o Simbrasil tanto em seu programa de seleção quanto no cruzamento industrial. O rebanho comercial reúne pouco mais de cinco mil matrizes zebuínas, conduzidas em um programa reprodutivo que combina inseminação artificial em tempo fixo (IATF) e monta natural. Na primeira IATF são utilizadas raças zebuínas para garantir a reposição de 30% das fêmeas do rebanho comercial. 

Em uma segunda etapa, a inseminação incorpora genética Simental e Simbrasil e, posteriormente, os lotes seguem para repasse com touros Simbrasil a campo. Esse arranjo na reprodução permite formar diferentes composições raciais dentro do próprio rebanho, mantendo a reposição de matrizes, o aproveitamento da heterose e a seleção do Simbrasil, já que é uma raça sintética, fruto do acasalamento ⅝ simental com Zebu, com composição de 5/8 e 3/8 de sangue respectivamente.

Como resultado prático, o sistema resulta em uma produção pesada, com bezerros a média de 240 quilos, sendo 2.000 ao ano. Com base nesse resultado, o pecuarista Bernardo de Vasconcellos, titular da SAEXI, credita ao Simbrasil a capacidade de agregar desempenho sem aumentar a complexidade operacional da fazenda.  

“O Simbrasil entrega heterose sem frescura”, afirma.. “O produtor não precisa criar um sistema diferente para aproveitar o potencial do cruzamento.” Para ele, na SAEXI, os touros Simbrasil trabalham a pasto nas mesmas condições enfrentadas pelos zebuínos, mas agregam o ganho proporcionado pela heterose, produzindo bezerros pesados e adaptados ao ambiente tropical.

Heterose aliada à rusticidade

O programa de cruzamento industrial da Saexi busca maximizar a heterose sem abrir mão da rusticidade, característica considerada cada vez mais estratégica para sistemas de produção tropicais. O foco é produzir animais mais eficientes, especialmente na cria, sem aumentar a demanda por manejo, estrutura ou intervenções adicionais na fazenda.

Todo o rebanho comercial trabalha com inseminação artificial em tempo fixo (IATF), utilizando touros Simental e Simbrasil, além de repasse com touros Saexi, sempre incluindo uma parcela da safra mais recente. 

A seleção prioriza fertilidade, eficiência reprodutiva, precocidade sexual e de terminação, ganho de peso, habilidade materna, qualidade de carcaça, eficiência alimentar, docilidade e adaptação ao sistema semi-extensivo. 

Na experiência da SAEXI, um dos principais diferenciais do Simbrasil está “na capacidade de produzir bezerros pesados mantendo a simplicidade operacional da fazenda”. Os acasalamentos são direcionados para obtenção de animais com maior desempenho à desmama, melhor conversão alimentar, qualidade de carcaça, precocidade e elevada adaptação aos diferentes ambientes de produção. “É isso que a pecuária brasileira precisa”.

Base está na seleção rigorosa

O programa de seleção conta com 500 animais Simbrasil, além de 300 Simental, raça mãe formadora do Simbrasil. Desta seleção, derivam os touros que são usados no cruzamento industrial e as fêmeas como matrizes. A Saexi tem ainda quatro touros em centrais de sêmen e comercializa 200 animais de genética ao ano entre touros e matrizes. 

A escolha dos reprodutores é baseada em avaliações genéticas oficiais, DEP’s, genômica e acompanhamento contínuo dos principais indicadores produtivos e reprodutivos. Para multiplicação do rebanho, a fazenda realiza fertilização in vitro (FIV) para produção de dois mil embriões por ano, que resultam em aproximadamente 800 prenhezes. 

“Nosso objetivo é desde a seleção produzir animais altamente funcionais, férteis, precoces e adaptados às condições tropicais”, afirma Vasconcellos. Segundo ele, a produtividade precisa caminhar junto com eficiência econômica, sustentabilidade e facilidade de manejo.

Os resultados observados ao longo dos últimos anos incluem evolução consistente da fertilidade do rebanho, maior precocidade, incremento no desempenho à desmama e ao sobreano, maior uniformidade dos lotes e melhoria da qualidade de carcaça, mantendo uma característica considerada essencial para os sistemas tropicais: a rusticidade. Para a fazenda, esse equilíbrio entre desempenho e adaptação explica o crescimento do interesse pelo Simbrasil em programas de cruzamento industrial.

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